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Eu queria que a mão do amor
Um dia traçasse
Os fios do nosso destino
Bordadeira fazendo tricô…

Em cada ponto que desse
Amarrasse a dor 

Como quem faz um crochê
Uma renda, um filó
Conhece as pontas do nosso querer
E desse um nó…

O mais importante do bordado
É o avesso
É o avesso…

O mais importante em mim
É o que eu não conheço
O que eu não conheço…

O que de mim aparece
É o que dentro de mim Deus tece
Quando te espero chegar eu me enfeito, eu me enfeito
Jogo perfume no ar
Enfeito meu pensamento
Às vezes quando te encontro
Eu mesma não me conheço
Descubro novos limites
Eu perco o endereço
É o segredo do ponto
O rendado do tempo
É como me foi passado o ensinamento.

Maria Bethânia

Dentro da noite voraz
Detrás do avesso do véu
Atravessa este verso
A vontade nua

Tua, tua
Tua e só tua

Dentro da noite feroz
No breu das noites brancas de hotel
No clarão, no vasto, no vago
No vão, no não, na multidão

Tua, tua
Tua e só tua

Dentro da noite fulgás
Estrelas a se consumir
Arde o gás que faz esta canção
Será que você vai me ouvir?

Tua, tua
Tua e só tua

Na areia, na neve marinha
No dentro do dia, tua
Na areia, na neve marinha
No motor do dia, tua

Tua, tua
Tua e só tua

Maria Bethânia

Fazendo tanto barulho
Você vai acordar meu orgulho
Que tanto dorme por nós
Tudo relevo e tolero
Mas já falei ‘Eu não quero
Que me levante a voz’

Apesar das divergências
Com todas as disavenças
A gente não separou
Porque meus olhos fechei
E sem rancor, perdoei
Os seus crimes de amor

Pode mentir à vontade
Eu sei que fidelidade
Não é seu forte afinal
E mesmo que eu quisesse
Ainda que eu pudesse
Não ia fazer igual

Porque só beijo quem amo
Só abraço quem gosto
Só me dou por paixão
Eu só sei amar direito
Nasci com esse defeito
No coração

Maria Bethânia

Amanhã, outro dia
Lua sai, ventania
Abraça uma nuvem que passa no ar
Beija, brinca e deixa passar
E no ar de outro dia
Meu olhar surgia
Nas pontas de estrelas perdidas no mar
Pra chover de emoção, trovejar

Raio se libertou, clareou muito mais
Se encantou pela cor lilás
Prata na luz do amor
Céu azul

Eu quero ver o pôr do sol
Lindo como ele só
E gente pra ver, e viajar
No seu mar de raio

Djavan

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto
Disfarça e chora

Cartola